“Level” – um texto de Diana Corso para o Instituto Roche

Para este fim de semana, o Instituto Roche recomenda um evento emocionante e imperdível: é “Level”, uma obra da exposição “Palavrar”, da artista Elida, que estreia neste sábado, 22 de outubro, na Biblioteca Pública do Estado, em Porto Alegre (Rua Riachuelo, 1190, Centro Histórico).

“Level”, que significa “carta”, em húngaro, é um conjunto em cartas em papel transparente, com as variações dessa palavra. Essas missivas são as cartas recebidas por Juan Lichtenstein por seu pai, que permaneceu na Hungria enquanto o horror nazista devastava a Europa. Hoje, essas cartas pertencem à psicanalista Diana Liechtenstein Corso, filha de Juan, que cedeu as cartas para a obra de Elida.

Em um texto emocionante escrito por Diana especialmente para o Instituto Roche, ela conta essa história fascinante e revela um lindo vínculo com a escola. Confira abaixo! 

 

O que vocês vão encontrar em Level – um dos trabalhos da exposição Palavrar, de Elida Tessler – é um conjunto de cartas em papel transparente escritas em húngaro. Sobre elas, a artista visual iluminou as variações dessa palavra, que quer dizer “carta” na língua magiar. É um caça-palavras, mas o que se encontra não revela um enigma, apenas fascina com seu mistério. São as cartas que meu pai recebeu de seu pai.
Juan Lichtenstein foi um sobrevivente discreto, a maioria deles é. Em parte, porque nem saberiam como explicar-se, em parte porque é impossível sobreviver a uma tragédia sem envergonhar-se frente aos que sucumbiram. Ele tinha 17 anos quando ficou claro para os judeus húngaros que era fugir ou morrer. Embarcou sozinho para a América, só reviu sua mãe, única da sua família que se salvou, oito anos depois.
Meu avô, que nunca conheci, percebeu a gravidade dos avanços nazistas sobre a Hungria. Por isso se exauria atrás de vistos para salvar a família, quando surgiu a oportunidade de embarcar os filhos desacompanhados para Montevidéu. Por insistência do pai, János (Juan), o primogênito, partiu aos 17 anos para o desconhecido Uruguai. Por resistência da mãe, seu irmão, com 14, ficou na Hungria. O resto da família comprou vistos para o Chile, porém os documentos nunca chegaram e pai e filho sucumbiram ao terror nazista.
Meu pai passou de 1939 a 1941 enviando notícias, tentando acalmar sua agoniada família. A comunicação ocorria através de uma folha de papel-avião, leve e transparente, escrita à máquina, por onde voavam consolos, conselhos, acolhidas e esperanças. Após sua morte, encontrei um maço das cartas que ele recebia. Não falo nem leio húngaro, mas aquelas folhas etéreas pesavam como chumbo. Depois de um tempo, as entreguei à Elida, acreditava que ela saberia o que fazer com elas. Quando Juan escreveu suas memórias, a ênfase era na vida, nunca se entregou ao ressentimento. Por isso teria concordado que a única forma digna dessas cartas escaparem do esquecimento seria pelas mãos poéticas de uma artista. E ele certamente teria escolhido a Elida. Juan Lichtenstein foi engenheiro químico profissional e intelectual amador, no sentido de apaixonado, a vida toda. Como bom húngaro falava sete línguas, traduzia e adorava esse tema. Mas foi no francês que ele encontrou sua derradeira pátria linguística, graças à admiração que nutria pelo brilho de Monsieur Roche, pela paixão que ambos compartilhavam pela história e pelos colegas que lhe proporcionaram deliciosos convívios e debates. Ele sempre disse que se aposentaria para ler a sua biblioteca que, como todas, superava o tempo que se tem para dar conta dela. Ele fez isso. Mas o Instituto Roche foi mais que isso, um abrigo para sua mente inquieta manter-se viva enquanto a vida lhe durou.